Entrevista Com Woody Brown / A Morte de Dickie Cross

By Zen Surfista - Henrique

No início dos anos 40, Woody casou-se com a sua segunda esposa Raquel, uma havaiana a quem alguns surfistas passaram a chama de “Ma” (de “mãe”) Brown. Eles viveram juntos e criaram duas crianças em cima da Waikiki Taverna, o epicentro de toda a loucura e cultura de surf da ilha. Não apenas a galera chamada “Hot Curl” fazia pranchas experimentando novos desenhos como também saíam para explorar novos lugares. Woody se juntou aWally FroisethJohn KellyFran Heath, Ruys Takaki e jovens surfistas como George Downing e Rabbit Kekai para explorer o surf de inverno no North Shore de O’ahu.

Minha entrevista com Woody:

“Ninguém tinha ido até o North Shore”, disse Woody. “Fomos os primeiros a ir lá. Wally e John Kelly disseram: ‘Ah, lá (onde hoje é Sunset Beach), é lá que tem ondas grandes”.

 

No dia 22 de Dezembro de 1943, Woody e um jovem chamadoDickie Cross remaram em Sunset num dia de o swell vinha crescendo. Naquele tempo, poucos tinha caído em Sunset e era apenas a terceira ou quarta vez de Woody em North Shore.

 

Woody continua: “Meu amigo e eu pensamos: ‘Ah, é inverno’, não rola nada em Waikiki. Então, ficamos chateados. Você sabe como são os surfistas. ‘Vamos tenta para lá’. E foi assim que acabamos pegos, pois as ondas chegavam a 20 pés (6 metros).”

 

“Bem, não era tão ruim, pois havia um canal por onde dava para sair. A única coisa era que, quando olhei da praia, pude ver a água dançando no canal? Daí, pensei: ‘Ô-ôu. Cara, deve ter uma correnteza forte ali, pois as ondas estão se acumulando na baía pelos dois lados’. Com isto, o canal que era estreito se perdia. Mas depois, ele abria. Então, eu pensei: ‘Putz, vamos lá sentar no canal um pouco mais longe da praia e ver como está essa corrente mais forte. Se não for assim tão forte, podemos remar de novo para dentro (das ondas). E aí, beleza, né?’”.

 

“E fizemos isto. Saímos. Sentamos no canal e não foi tão ruim. Podemos remar para dentro a qualquer hora. ‘Ok’, eu dise. Havia ondas de 20 pés (6 metros) quebrando de cada lado. Saímos para pegar essas ondas dropando na direção do canal. O único problema era que o surf mesmo estava a caminho. Mas não sabíamos disto. Foi o maior surf em anos e anos, sabe, e estava vindo na nossa direção. 20 pés eram só as menores do ia, mas não sabíamos! Digo, parecia tudo bem!”.

 

“Então, fomos pegos lá dentro! Cada vez ficava maior e maior até que, no final, estávamos sentados num buraco imenso onde o surf rolava dos dois lados vindo na direção do canal. O canal abriu e virou uma grande e profunda área, ali onde nós estávamos, o surf quebrando dos dois lados enquanto nós tentávamos pegar as ondas.”

 

“Então, de repente, lá no fundo, uns 800 metros de onde estávamos – isso mesmo, numa distância de 800 metros, lá longe, uma onda gigante veio chegando até a praia de ponta a ponta. Ela espumou e quebrou lá fora! Pensamos, ‘Cara, já era, brother. É o fim’. Mas estávamos sentados naquele buraco e assistimos enquanto aquilo tudo vinha na nossa direção. A espuma estava rolando forte, 20 pés de espuma, hein? Muita espuma vindo, mas pouco antes de chegar até a gente, ela bateu naquele buraco e simplesmente recuou. O swell grande continuou, mas não quebrou. Oh, cara! Foi um baita susto! E aí veio uma série de 5 ou 6 ondas do mesmo jeito. Então, depois que a série se foi, nós dissemos: ‘Ei, vamos entrar logo nessa droga! O que estamos fazendo aqui? Não podemos ficar aqui! Vamos entrar!”.

 

“Então, tentamos remar para dentro” (Woody faz os gestos da remada). “À medida que entrávamos no canal, ele ia estreitando. Remamos, remamos e finalmente paramos para descansar um minuto quando meu amigo disse: ‘Woody, você sabe onde nós estamos, né?’. E eu parei para pensar, mas, caramba, nós não tínhamos saído nem um mísero metro! Toda aquela remada e estávamos exatamente no mesmo lugar. Não conseguimos entrar.”

 

“É preciso ter muito cuidado com esses canais. Quando as ondas ficam grandes, a corrente de retorno simplesmente vem com tudo fora da baía. Você não consegue entrar. De todo jeito, a questão é que não sabíamos o que fazer” – admitiu Woody. “Então, finalmente decidimos: ‘Bem, só há uma coisa a fazer. Precisamos esperar até que aquela série enorme passe’. E isto só acontecia a cada 10 minutos. ‘Então, era só remar feito louco para sair das ondas, e aí então descer remando para a praia até chegar em Waimea’. Quando tínhamos passado por Waimea, antes de entrar ali, as ondas só tinham 20 pés (6 metros). A baía toda estava aberta, certo? Só estava quebrando no pico ou talvez um pouco mais ou menos fora do pico. Então, pensamos, tudo bem, sairíamos por lá onde estava grande, mas quebrando na praia.”

 

“O problema foi que as coisas não saíram bem daquela maneira. Quando chegamos lá, a coisa foi ficando cada vez maior. A onda crescia na altura do restaurante de Haleiwa e saía arrastando tudo até a altura da estrada em Sunset. Era o maior surf de anos e nós estávamos preso lá dentro” – Eu mencionei que George Downing jurava que as ondas chegaram a 40 pés (12 metros) aquele dia, quebrando acima da bancada com 80 pés ( 24 metros) de água e perguntei a Woody se ele concordava com aquela estimativa.

 

 

“Sim, com certeza.  Conseguimos sair bem, passamos das séries grandes em Sunset. No caminho, enquanto descíamos remando para Waimea, começamos a remar para a praia. O cara que estava comigo, um garoto (ele tinha apenas 17 anos na época), era na verdade um moleque raçudo. Sabe, um desses caras com coragem demais no peito, mas nada na cabeça: ‘Sóóó’.”

 

“Então, estávamos lá, remando para fora, mas ele continuava entrando! Eu gritei: ‘Ei!’, enquanto olhava e remava, e aí, cara, eu disse: ‘Veja, o surf está quebrando bem nesta linha onde nós estamos, na nossa frente e lá atrás. Nós estamos bem na linha da rebentação. É melhor sairmos logo daqui, agora mesmo.’

 

“Que nada, que nada! Tá beleza!”

 

“Ele não queria sair. Mas eu podia ver que estávamos numa roubada! Então, eu arrastei e disse: ‘Bem, eu vou sair daqui. Vamos!’. Eu me afastei uns 100 metros de perto dele e nós descemos remando daquele jeito, lado a lado”.

 

“E então, o que eu tinha medo que acontecesse, acabou realmente acontecendo. Em outras palavras, uma série veio para onde nós estávamos. Era uma série gigante, tremendamente grande. Cara, lá estava, na nossa frente, uma escada crescendo até onde a vista alcançava, cada vez mais alta. Putz, meu irmão! Saí me debatendo com tudo o que eu tinha… mas você podia dar 10 braçadas e ainda estaria subindo a onda que não parava de crescer. Ô!”

 

“Eu passei por elas, ultrapassei todas as séries e sentei para ver onde Dickie estava porque ele estava comigo! Cara, não deu para vê-lo porque as ondas estavam todas no caminho. E então, eu o vi passar pelo topo da última onda e ela estava tão íngreme que a prancha e o próprio Dickie simplesmente voaram pelos ares caindo do outro lado. Aí ele remou até mim e eu disse: ‘Dickie, você acha que poderia ter sobrevivido a esta onda?’.

 

“‘Nem sonhando’, ele disse”.

 

“Então eu disse: ‘Qual o tamanho que você acha que essas ondas estão chegando?’, e concordamos que tinham 60 pés (18 metros).

 

“Daí continuamos descendo até a praia, sabe”, disse Woody absorto recontando a história toda. “E ele estava comigo. À medida que chegávamos perto de Waimea, ele começava a entrar de novo. Eu gritei: ‘Ei, Ei! Não!’. Porque tínhamos combinado que sairíamos no meio da baía onde era seguro e sentaríamos lá para ver a série passar e checar como estavam as coisas. Assim nós poderíamos decidir por onde entrar e tal. Mas, não! Ele começou a entrar e eu gritei mais ainda: ‘Ei, ei! Não vá! Vamos sair pelo meio!’.

 

“Nada!”

 

“Ele simplesmente não dava ouvidos. Era como se fosse… a hora dele. Como se algo o chamasse, sabe? Pois, veja só como ele estava agindo! Mesmo depois de quase ter sido pego e admitir que não sobreviveria a uma onda daquelas, ainda assim, ele estava entrando de novo. Era quase como se fosse a hora dele. Eu não sei.”

 

“De qualquer modo, ele entrou… enquanto nós subíamos. Quando nós chegamos no local, havia ondas de 20 pés (6 metros) quebrando por lá o tempo todo em séries grandes de 10 minutos. Então, ele entrava e eu o via subir aqueles swells para depois descer do alto das ondas. Até a próxima em que ele chegou, mas desapareceu. Então, eu o vi subir até o alto e parecia que ele estava tentando descer as ondas. É, foi a única coisa que consegui pensar na hora.”

 

“Até que veio outra onda mais alta e ele perdeu a prancha. ‘Ah não, cara’, eu pensei, ‘Caramba, agora somos nós dois na minha pranchinha cut-down!’, que era a prancha que eu usava. E eu estava exausto. ‘Dois caras em uma prancha?’ Que chance vamos ter agora?’. Mas então, eu disse a ele: ‘Saia, saia!’. E ele parecia dizer: ‘Não consigo, Woody, estou cansado demais!’. Foi o que parecia dizer. Mas, então, ele começou a nada da minha direção, então eu comecei a remar para dentro das ondas para pegá-lo na minha prancha”.

 

“Bem, assim, numa hora daquelas e com aquelas ondas enormes… você está sempre olhando para fora, certo? Seus olhos não saem de lá porque você nunca se sente seguro. Então, lá estou eu, remando com um olho nas ondas e outro nele para pegá-lo. De repente, os olhos deles pareceram enxergar aquelas montanhas de água vindo do mar aberto na nossa direção, simplesmente se amontoando uma acima da outra, lá dentro. Eu me virei e comecei a remar para fora com tudo de mim porque calculei que se perdêssemos aquela prancha também, então aí que não teríamos chance alguma. Dois caras a nado?!”

 

“Minha única chance é salvar a única prancha que temos. Então, eu me virei e remei em direção a primeira onda que vinha… ela continuava vindo, crescendo e ficando mais em pé e mais alta com um pouco de espuma no alto. Bem, eu vi que simplesmente não conseguiria, a onda já estava formada na crista. E aí, quando ela chegou em mim, eu joguei minha prancha e apenas mergulhei até o fundo. Esta é a única chance que se tem em uma onda grande.”

 

“Naquela época eu conseguia descer até 30 pés (9 metros) e foi o que fiz, até o mais fundo e, cara, dava para sentir quando eu era puxado para cima para depois ser puxado de volta. Pude ver as bolhas se formando embaixo e atrás de mim. Estou a 30 pés (9 metros) debaixo d’água e ainda fazia toda aquela bolha! Não dava sobreviver àquilo. O que tive foi sorte de estar afastado exatamente o suficiente para me safar.”

 

“Eu cheguei à superfície. A próxima série se aproximava e eu nadei como um louco na direção dela. Felizmente, as ondas quebraram no mesmo lugar e eu mergulhei conseguindo ficar embaixo dela. Uma série inteira, umas cinco ondas. Então, quando todas passaram, comecei a procurar por Dickie. Eu não parava de pensar nele. Nossa, cara. Eu berrei, chamei por ele, procurei, saí nadando, mas não havia mais sinal algum do Dickie. Para completar, estava ficando escuro! O sol tinha começado a se pôr.”

 

“Então, lá estou eu, nadando e pensei: ‘Bem, eu vou morrer de qualquer maneira, então, vou tentar entrar nadando porque, mas que merda!, já estou morto se ficar boiando sem rumo’”. Woody tirou o calção para reduzir a resistência e por um instante pensou nos tubarões. “Mas que ridículo”, ele disse. Se nem sabia se conseguiria sair vivo dali, para que se preocupar com tubarões?

 

“Não havia surfista algum no North Shore aqueles dias. Ninguém sabia que tínhamos ido até lá e também não tinha barco nenhum. Eu pensei: ‘Merda, estou morto mesmo. Vou fazer como falamos. Eu vou nadar até o meio da baía e vou esperar as séries maiores passarem para depois tentar nadar. E que Deus me ajude a chegar longe o bastante para que na próxima série eu não esteja onde ela seja nem tão grande nem tão forte.”

 

“E foi isto o que eu fiz. Tive muita sorte quando a primeira veio. Esperei, ela vinha cada vez maior e mais alta e não quebrou em mim, talvez uns 400 metros de onde eu estava. Eu disse: ‘Bem, talvez eu tenha alguma chance’. Então, mergulhei o mais fundo que consegui novamente e levei na cabeça. E que porrada… quando eu já não agüentava mais e umas manchas escuras começaram a aparecer na minha frente, comecei então a partir na direção de qualquer coisa que fosse mais parecida com luz ou que tivesse alguma cor.  Assim, eu já não sabia o que era para cima e o que era para baixo. Onde parecesse haver  uma luz colorida, poderia até parecer que era para baixo, mas era para lá que eu seguiria’. E aí eu levantei a cabeça!”

 

“Então eu pensei: ‘Cara, se sobrevivi a esta, então tenho mesmo chance!’. Porque assim, cada série que passava me arrastava mais e mais para fora, certo? Então, cada vez eu mergulhava um pouquinho menos e me vi sendo arrastado.”

 

Eu disse a Woody que imaginava então que ele estivesse olhando para a direção das ondas, mergulhando uma por vez.

 

“Sim, você fica olhando enquanto elas vêm. Sim, sim, claro”, ele respondeu. “Então, no último instante, você mergulha antes que ela te pegue.”

 

Woody na Entrevista
Woody na Entrevista

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“E assim elas me arrastaram até a praia. Eu estava tão fraco que não conseguia ficar de pé. Me arrastei com as próprias mãos e joelhos até que uns militares vieram correndo. A primeira coisa que perguntei: ‘Onde está o outro cara?’. E eles disseram: ‘Oh, não o vimos mais depois que ele foi coberto por aquela primeira onda maior’. Quando me disseram aquilo, eu entendi que Dickie tinha tido tanta coragem que tentou surfar de peito (“jacaré”) a onda. Do contrário, ele teria mergulhado! Mas por que ele não tinha mergulhado? Se ele foi “coberto”, então isto significava que ele estava no alto da crista, certo? Ou então ele não falaria desse jeito! Então, eu entendi que ele tinha mesmo tentado surfar de peito.”

 

 

 

Woody Brown
Woody Brown

 

Original (em Inglês): http://www.legendarysurfers.com/blog/

Livre Tradução: Henrique

Tags: , , , , ,

Uma resposta para “Entrevista Com Woody Brown / A Morte de Dickie Cross”

  1. patryk Disse:

    pqp!! essa foi foda!!! o kra morreu mesmo?!

    hey, esse lance de desbravamento eh pau!! parece muito com a gente descobrindo os segredos dos points nas primeiras sessions!!!

    abs brow!!

Deixe uma resposta